Peter Hacker e o Desafio da Autonomia do Empreendimento Filosófico – 2

Continuando a argumentação Peter Hacker do post anterior.

[pg. 31] Mais ainda, a distinção entre verdades gramaticais e empíricas não é exaustiva, pois há uma classe de proposições variadas que constitui o pano de fundo herdado contra o qual distinguimos verdade de falsidade (por exemplo: “o mundo existe a muitos anos”, “Gatos não crescem em árvores”, “Meu nome é NN”) Tais proposições são empíricas – dizem respeito ao mundo e ao que há nele – , embora tenham um papel similar, sob certos aspectos, àquele das proposições gramaticais, uma vez que podem servir como regras para testar outras proposições. Elas não são auto-evidentes nem manifestas aos sentidos ou à razão, nem são inferidas de proposições que são assim; no entanto, não são apoiadas por nenhuma evidência que seja mais certa do que elas próprias. Elas se sustentam pelo que as cerca, como a pedra angular de um arco [Nota de Hacker: Wittgenstein caracterizou tais proposições como proposições da "imagem de mundo" de alguém; Veja-se On Certainty. Para uma discussão esclarecedora eja-se A.J.P. Kenny Faith and Reason].

Contrariamente à posição de Quine, verdades da lógica e da matemática não “enfrentam o tribunal da sensibilidade” para confirmação ou infirmação juntamente com as teorias científicas nas quais foram utilizadas. A verdade delas é estabelecida por demonstrações dedutivas, e a aceitação de uma demonstração é o mesmo que isolar a proposição em questão de fatos empíricos. Nenhum teorema lógico ou matemático se mostra falso pela rejeição da teoria empírica na qual é empregado. Nem a confirmação de tal teoria (por exemplo, a teoria da gravitação universal de Newton) torna mais certa a matemática que ela emprega (por exemplo, os teoremas do cálculo diferencial não se tornam mais certos pelo sucesso da física newtoniana) [suprimi aqui uma nota de Hacker]. De modo nenhum se julgará como demonstração que uma proposição aritmética comprovada é verdadeira apenas na maior parte dos casos, ou somente sob certas condições específicas. Mas isso, contra Quine, não é por que nós blindamos tais proposições mais que outras contra infirmações por considerações atinentes à simplicidade da teoria. Antes, um papel inteiramente diferente daquele das proposições empíricas é atribuído a tais proposições – elas são normativas, e não descritivas. O que mantemos rigidamente em face da experiência não é uma verdade do mundo, mas a expressão de uma regra – por exemplo, uma regra para transformar descrições de como as coisas são no mundo.

Continua no próximo post.

Sobre Arturo Fatturi

Brasileiro. Nascido em 1962. Casado. Professor de Filosofia. Mestrado em Filosofia Contemporânea - UFSC, concluído em 2003. Doutor em Filosofia - "Subjetividade e Filosofia Contemporânea" - UFSCAR, em 2010. Área de estudo específico: Filosofia de Ludwig Wittgenstein - Filosofia da Mente, Pós Doutorado em Filosofia pela UFSC "Crença Básica em On Certainty de Ludwig Wittgenstein", concluído em 2011. Professor Adjunto I (DE) no Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Mato Grosso, UFMT.

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